segunda-feira, 9 de maio de 2011

Sobre a reverência e o passado.

"Eu não vivo no passado. O passado vive em mim" - Paulinho da Viola

Seguinte: isso é um breve complemento ao post anterior. Uso muito este lance da reverência ao passado no texto e o ponto é: na cena musical atual tem muita gente buscando fazer o mesmo samba que se fazia há 50 anos, ou pegando este samba e colocando alguns efeitos eletrônicos pra repaginá-lo e torná-lo novo. O problema é que somente isto não basta para se fazer algo moderno. Para soar moderno.

A Tropicália ainda me soa muito mais moderna que muita coisa recente. Os Mulheres Negras me soam muito mais modernos que trabalhos lançados de dois anos para cá e que foram catapultados pelo aspecto moderno e "cool".

Mas a mim, isto não convence. Para se criar algo moderno, deve-se largar o passado. Tê-lo como referência sim, mas não como base para toda uma criação artística. A base deve ser o próprio pensamento do artista e este sim deve ser moderno.

Aliás, nem faço questão de nada moderno. Faço questão das coisas mais reais. Não precisa soar modernoso não. Soe de verdade e basta. Isso é o que penso, opinião pessoal. Indaga.

Como se diz em nossa galera, NÃO SOMOS MODERNOS. E nem precisamos ser. E se tiver que ser, será. Mas sem buscar, premeditar, forçar uma coisa que não somos.

Fui.

Medéia 2011





O título do post não surgiu somente por causa do ano corrente, mas principalmente pela montagem de Medéia, um clássico do teatro grego revisto pelo Alucinógeno Dramático Teatro Experimental.

Atualmente o grupo está na Casa Amarela com a referida peça. Com uma mistura de lugares, idiomas, sotaques, bebidas e músicas a peça é totalmente revista e trazida para o nosso tempo. Tem mexicano falando portunhol, tomando tequila. Tem rei transformado em general, bolero, tango e música de concerto, tem misticismo e obviamente tragédia.

Me parece que se um dia Tarantino fosse filmar Medéia, teria como base esta montagem (se um dia lhe fosse possível conhecê-la), tal o dinamismo e o non-sense (?) aplicados na montagem do texto.

O que mais me chama a atenção é a ausência da reverência ou respeito ao passado e ao clássico, mas sem perder o contexto e a força do texto, sem forçar uma barra pra parecer moderno. Simplesmente é novo. Com a cara do nosso tempo.

Reparem que eu não disse que o texto foi alterado, picotado, recriado para assim ter-se o novo. Neste ponto (que é o essencial, o que vale mesmo) a obra é íntegra e fiel à tragédia grega. O ponto é não ficar parado, babando ovo para o teatro clássico.

Medéia 2011. E tenho dito!


terça-feira, 29 de março de 2011

LÁ ELE!

O "Lá Ele" é uma das mais importantes expressões do idioma baianês, mais especificamente do dialeto soteropolitano baixo-vulgar. Segundo os léxicos, a expressão significa "outra pessoa, não eu" (BILÔ, Nivaldo. Dicionário de baianês. 3a ed. revisada e ampliada. Irecê, BA, 2007). A origem da expressão é ambígua. Alguns etimologistas atribuem seu surgimento às nativas do bairro da Mata Escura, enquanto outros identificam registros mais antigos no falar dos moradores do Pau Miúdo. O certo, porém é que o "lá ele"desempenha papel fundamental em um dos aspectos mais importantes da cultura da primeira capital do Brasil - a subcultura urbana do duplo sentido. Desde a mais tenra infância, os naturais de Soterópolis são treinados para identificar frases passíveis de dupla interpretação. Da mesma forma, os soteropolitanos aprendem desde cedo a engendrar artimanhas para que seu interlocutor profira expressões de duplo sentido.

Assim, as pessoas vivem sob constante tensão vocabular, cuidando para não fazer afirmações que possam ser deturpadas pelo interlocutor. Para indivíduos do sexo masculino, por exemplo, é vedado conjugar na primeira pessoa inocentes verbos como "dar", "sentar", "receber", "cair", "chupar", etc. O interlocutor sempre estará atento para, ao primeiro deslize, destruir a reputação de quem pronunciou a palavra proibida. Como antídoto para a incômoda prática, o "lá ele"surgiu como uma ferramenta indispensável na comunicação do soteropolitano. Assim, o indivíduo que falar algo sujeito a interpretações maliciosas estará a salvo se, imediatamente, antes da reação de seu interlocutor, falar em alto e bom som: "lá ele"!

Por exemplo, qualquer homem, por mais macho que seja, terá sua orientação posta em dúvida se falar: "Neste natal comi um ótimo peru!". Contudo, se sua frase for "Neste Natal comi um ótimo peru, LÁ ELE!" não haverá qualquer problema. No mesmo diapasão, confira-se:
- Se um colega de trabalho enviar um e-mail perguntando: "vai dar pra almoçar hoje?", não se pode responder apenas "Sim", deve-se responder "Lá ele, vamos almoçar".

- Se, na pendência do pagamento de polpudos honorários, um advogado perguntar ao outro "Já recebeu?", a resposta deverá ser "Lá ele. Já foi pago",

- Ou ainda, se alguém nasceu no citado bairro do Pau Miúdo, o que poderá transformar sua vidda em um interminável festival de chacotas, deverá sempre valer-se da ressalva: "eu sou do Pau Miúdo, Lá Ele".

Para melhor compreensão dad matéria, reproduz-se abaixo um exemplo real, ocorrido no último domingo, durante a transmissão do épico triunfo do glorioso Esporte Clube Bahia sobre o Atlético de Alagoinhas:

-Locutor: "Subiu o cartão amarelo?"
-Repórter: "Subiu o amarelo e o vermelho."
-Locutor: "Mas você está vendo subir tudo?"
-Repórter: "Lá ele!"

Note-se que o "lá ele"pode sofrer variações de gênero e número, de acordo com a palavra que se pretende neutralizar. Se, antes de uma sessão do TJBA, alguém perguntar: "Você conhece os membros da turma julgadora?", deve-se objetar com veêmencia: "Lá eles!". Ou se o cidadão for à Sorveteria da Ribeira e lhe perguntarem "Quantas bolas o senhor deseja?", é de todo recomendável que se responda "Duas, lá ele, por favor".

O duplo sentido é, antes de tudo, uma forma de verificar quem de fato possui pensamento ágil para se proteger das armadilhas que são montadas atrás das palavras, o seu sentido maior: o significado. E é justamente aí que se dá a utilidade das palavras que mais devemos nos apegar, entre elas está indubitavelmente nossas duas melhores amigas: LÁ ELE!

Artigo repassado a este blog por Sacha Arcanjo, que trouxe para nossas terras a Puia, como é conhecido o duplo-sentido. LÁ ELE!

domingo, 26 de dezembro de 2010

Hermanos!

Esta semana assisti Tetro de Copolla e Abutres de Pablo Trapero. Dois filmes, duas coisas em comum: acidentes de carro e Argentina. Não quero nem entrar na indaga sobre os filmes mesmo, mas digo que os dois são muito bons (e o do Copolla é lindo). O lance é a produção. Ambos com investimento de dinheiro público.

É fato que de todas as artes, o cinema é mais cara, que exige mais investimentos para se fazer uma obra. Fato também que em países que ficam abaixo do equador leis de incentivo são necessárias, visto que não temos uma cultura tão forte de patrocínio em cultura (o cenário começa a mudar, mas ainda é pouco e só há investimento em determinadas produções, do contrário, a coisa acaba indo para a Lei de Incentivo).

Sendo assim, nada mais justo que o Estado fomentar o mercado, para se criar uma cultura de boas produções, que levam à formação de público e aumentam o nível cultural da nação.

Acredito que seja o que a Argentina está fazendo ao investir em filmes como os dois supracitados. Filmes bons, que fogem do lugar comum das grandes produções (sem nenhum demérito a blockbusters e afins).

O ponto é: já que o Estado não é uma companhia de cinema, este deve fomentar boas produções que não conseguiriam grana de outra maneira.

Agora a indaga: está certo investir em filmes que já conseguiriam grana de outras formas? Está certo que tais investimentos geram retornos para a economia local, contudo não vejo o cinema nacional crescendo como o argentino (ainda acho Tropa de Elite um caso isolado). E acredito que a Rio Filmes deveria melhorar a qualidade dos filmes nacionais não? Fazer boas produções e entrar no circuito de filmes sem ter que pagar uma grana.

Sei lá. Tem muita coisa envolvida, desde economia até a subjetividade da qualidade de um filme, mas acho que os hermanos estão melhores que os tupiniquins.


terça-feira, 2 de novembro de 2010

Alegria! Mafaro!

Primeiro foi Os Mulheres Negras. Inquieto. Desconfiado. Depois foi o Karnak (Estamos adorando Tókio). Que porra é essa? Tudo ao mesmo tempo agora?! Por último, Mafaro. Agora fudeu de vez. É de onde? Vai pra onde? Como? Por que? Atrás de respostas ou, quem sabe, mais dúvidas, fui ao Show Filme de André Abujamra, a mente por trás destas paradas (talvez não a única, mas a que está sempre por lá).

Treco indaguento. É show? É. É filme? É. - Que porra é essa? É isso. É tudo junto: filme, música, show, ao vivo, sampleado, tocado, gravado, filmado e reproduzido na hora.

Musicalmente tem de tudo do mundo todo. Brasil, Índia, África, Ásia, Norte, Sul. O que não pode ser executado no palco é sampleado, sem perder coesão com o som feito ao vivo (afinal a instrumentação é bastante ampla no disco).

Cinematograficamente é uma colagem de imagens de filmes antigos, com filmagens feitas pelo próprio Abujamra, com imagens ao vivo, com os convidados no disco cantando na tela, uma doideira mesmo.

André no palco é muito louco, muito real, muito singelo. É muito bom ver o cara, pois ajuda a fechar o conceito da obra dele. Das letras e da músicas. É possível enxergar a personalidade do cara no palco. Muito foda.

E ele ainda faz trilha pra cinema!

Só vendo.

Mafaro!

Diko Fara!

sábado, 16 de outubro de 2010

Sustenta aí!

Li um artigo na Revista Época esses dias que me instigou sobre o tema da sustentabilidade, a tal "onda verde" que tomou conta do Brasil (quiçá do mundo?) nestes últimos tempos.

Temos de um lado os caras que tocam o foda-se, e "o mundo que morra" e do outro os "ecochatos"e suas ongs e blá, blá, bla.

No final das contas, é tudo uma questão de bom senso (ou de pagar pra ver?). Você não vai cagar onde você come. Então não fode a biela. É simples assim. Sabendo que este planeta não pode ser substituído por um outro, é natural que as pessoas de bom-senso tentem preservá-lo. Não é uma coisa sobrenatural. É bom-senso.

Agora temos uma galera que leva a coisa de uma maneira fundamentalista e trata qualquer outro ser que não encare o assunto da mesma maneira como o Bush encara o Islã: Nós somos os melhores. Se vocês são contra a gente, devem morrer.

O mundo não é preto-e-branco. Existem vários tons de cinza entre as duas pontas, então é isso, o bom-senso resolve a coisa.

Isso dá muito pano pra manga ainda, mas acho que está bom para provocar uma indaga.

Saliente-se: eu como carne e não fumo maconha. Aos olhos de alguns fundamentalistas eu sou alienado.

Como diria o outro: Quer me foder? Me beija porra!

P.S.: Outra coisa da matéria: a Marina não ganhou votos por causa da onda verde. Ganhou votos porque representa uma alternativa à mesmice. Mesmo porque quem gosta de verde já está na onda.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

LEMBRA DAQUELA CONVERSA? OU O (NOVO DE NOVO!) MOVIMENTO NOSSA ZONA LESTE

Pois é, gato!

Hoje recebi um daqueles e mails do tipo "vamos salvar a cultura da nossa região". Ouço isto desde moleque, mas hoje tenho outra interpretação: "vamos arranjar um jeito do nosso grupinho se garantir nos próximos quatro anos" ou "preciso me garantir e aparecer nesta". É como a maioria sentada nestas rodas pensa. Mas não são todos. Ao menos na lista abaixo, acredito muito no trabalho do Padre Ticão pois já vi o santo homem mudar para melhor o destino de muita gente humilde - aliás, o nome dele nesta lista me faz quase acreditar na honestidade deste movimento: o Ticão não se suja!

Mas o que me enche o saco mermo é esta moda de artista social. Manja o cara que faz peça de protesto pra denunciar os politicos ao povo na praça pública e o povo, enquanto assiste a apresentação, joga o papel de bala no chão e aí o papel entope o banheiro e a casa dele inunda? Este tipo de artista cheio de discursinhos esquerdistas doidos pra arranjar um ganha niquel seguro? Eu  tô de saco cheio desta "bela" condição de artista social que todo mundo assume hoje. Não existe mais preocupação estética, dramaturgica ou algo que "tenho vontade de  dizer algo pessoal às pessoas hoje". Existe sim uma necessidade absurda de protesto político, como se ainda estivessemos nas décadas de 60, 70 e 80. Todos os grupos unem suas forças para protestar contra um capitalismo cruel, um neoliberalismo inconcebível, uma burguesia tirana, um churrasquinho de domingo, um bom e velho cigarro industrial ou um sexozinho hétero. Tá um saco tudo isto! Parece que para ser artista hoje o cara precisa votar na Esquerda (quanto mais pra esquerda, mais artista o cara é!), ser homossexual (bi não vale, hein!), ser vegetariano (quanto mais vegano, mais artista o sujeito é!), fumar maconha e criar trabalhos artisticos que revelem à sociedade o âmago, o supra-sumo do protesto desmesurado contra os pobres, fracos e oprimidos.
Não que o artista não possa possuir os adjetivos citados. A questão é que eles se tornam assim por uma grande necessidade de ser "diferente", "causar", 'mostrar para o mundo que posso ser o que eu quiser mesmo que o ofenda". Pelo amor de Deus! Agora se eu fumo um Marlboro ou transo com minha mulher sou visto com maus olhos e todo meu estudo e minha técnica perdem a importancia! Danou-se! Mas não importa: meus heróis não morreram de overdose.

De qualquer forma, vai rolar esta reunião. Não sei se vou, pois estarei no lançamento do catálogo do artista Guilherme Faria na Caixa Cultural Sé. Eu sei: é burguês e chique, mas é de graça e o cara vai tá lá, falando de seu processo de trabalho e demonstrando algumas técnicas. Quando acabar, se der, eu vou na tal reunião, mas devo dizer que se for vai ser só pra confirmar a suspeita que tenho...

Bom, o toque tá dado. Divirtam-se.

"E como é tudo a mesma merda
antes que chegue a vida eterna
Eu vou pedir asilo ao Paraguai
Ah, mas não se importe não:
no final o bandido casa com o mocinho
E o best seller vai pra miléssima edição"
(Raul Seixas & Marcelo Nova)

Segue o e mail recebido com o nome dos participantes do tal movimento:


Deveremos comparecer nesta reunião de suma importância para a nossa região. Só não poderemos esquecer que essas metas são para o Governo do Estado de São Paulo e que devem ser pensadas com a Secretaria de Estado e suas ações.


Quais são os projetos que ela administra?


E quais são os projetos ou programas de incentivo a culyura que ela desenvolve?


Esta região é contemplada com algum projeto ou programa?


Quais?


O que sugerir, reinvindicar ou cobrar?






A pauta deve ser bem honesta e possível, sem subterfúgios para não nos confundirmos.










MOVIMENTO NOSSA ZONA LESTE


GRUPO DE POLITICAS CULTURAIS


Metas de Políticas Culturais para a Zona Leste – 2010 a 2022


Próxima reunião


Dia 14 de agosto - Sábado- 14:30h


Local: Rua Mario Dallari, 170 - Trav. da Av. Marechal Tito - São Miguel










Para conhecer as Metas e sobre o grupo clique no link abaixo: (não veio link no e mail e eu não me dei o luxo de procurar)


Segue abaixo a ata da último encontro.






Ata de reunião


No último dia 29/07/10 o Grupo de Trabalho de Cultura do Movimento Nossa Zona Leste esteve reunido no Centro Cultural Arte em Construção, espaço do Grupo Teatral Pombas Urbanas, localizado na Cidade Tiradentes, nesse encontro foi tirado algumas demandas que alguns integrantes do grupo ,então presente, ficaram encarregados de dar encaminhamento.


A reunião teve início com a apresentação e em seguida informes gerais.






Ata do Encontro:


Elaboração de um documento que conste as metas das políticas culturais para serem entregues aos parlamentares que comparecerem no encontro que esta sendo organizado pelo Movimento Nossa São Paulo para ocorrer no dia 23/08/10 as 19h na Penha.


Organizar uma Conferência Municipal livre de Cultural. Esta proposta surgiu como um desafio para este GT, primeiro porque as duas últimas Conferências Municipais foram convocadas pelo governo, e segundo porque a idéia de organizar uma Conferência na Zona Leste poderá ser uma referência para as outras regiões da cidade, para tanto levantou-se a necessidade de criar uma agenda para a organização do evento.










Próxima Reunião ficou para o sábado 14/08/10 as 14:30h


Local: Fundação Tide Setubal – São Miguel


Rua Mario Dallari, 170






Instituições, grupos e artistas participantes:






Instituto Pombas Urbanas – Adriano


Fundação Tide Setubal- Tião Soares


Movimento Cultural Penha – Julio


Instituto União Keralux – Evandro / Adriana


Nova União da Arte – Valter Passarinho


Sucatas Ambulantes – Jefferson Cristino


MADR – RAPs – Manulo


Associação São Martinho – Aguinaldo Alves


Ponto de Leitura – S.Miguel – Adelina Martins


Zulu de Arrebatá – Músico


Antonio Carlos – Músico


Marinho Toledo – Arte educador


Michael Castro


Paulo Francisco dos Santos


Mauro Mendonça – Músico


Projeto Gente – Silvio de Almeida – Ponto de Cultura de S.Mateus


Igreja São Francisco – Padre Ticão


Rede Social Penha – Neemias Rodrigues


Ponto de Cultura do Jd. Sapopemba – Roni Lima


Jornal Voz da Comunidade – Luis França






Ajudem a divulgar.